24/10/2012
Atualizada: 24/10/2012 00:00:00
Em um belo trabalho de Paulo Werneck e Raquel Cozer, a “Folha de S.Paulo” revela hoje a identidade do “jurado C”, que com suas notas esdrúxulas decidiu sozinho os três vencedores do prêmio Jabuti de romance. Trata-se, segundo o jornal, do crítico literário Rodrigo Gurgel, colaborador do jornal “Rascunho” e autor do recém-lançado “Muita retórica – pouca literatura” (Vide).
A manipulação do resultado ocorrida na fase final, em que suas notas extremas transformaram em peças nulas as avaliações dos colegas de júri, não foi tudo. Descobre-se que o jurado – aparentemente determinado a explorar a polissemia da palavra – contrariou os juízos que ele próprio emitira na primeira fase do julgamento: o livro de Wilson Bueno ganhou dele média 8,67 na etapa eliminatória e 0,33 na final; o de Luciana Hidalgo caiu de 9 para 0,83.
Em seu blog, está no ar neste momento uma entrevista em que Gurgel faz uma lista dos críticos literários que admira: “Samuel Johnson, Charles Moeller, Northrop Frye, Edmund Wilson, Lionel Trilling, Joseph Pearce e Marcel Reich-Ranicki. Entre os brasileiros, gosto de Álvaro Lins, Augusto Meyer, Lúcia Miguel-Pereira, Temístocles Linhares, Wilson Martins e, mais recentes, Alexandre Eulalio, João Alexandre Barbosa, Marisa Lajolo, Alcir Pécora e Moacir Amâncio”.
Um aspecto curioso do episódio é que o mesmo resultado – a vitória dos autores desconhecidos sobre os que são consagrados ou pelo menos detentores de maior cacife midiático – poderia ter sido atingido com a atribuição de notas em torno de 5 ou 6, que seriam defensáveis criticamente, aos livros destes últimos. As notas entre 0 e 1,5 parecem ter obedecido não só ao desejo de conceder o prêmio a iniciantes, mas também ao de ver o circo pegar fogo. A ponderação de que o incendiário também seria atingido pelas chamas, se existiu, foi estranhamente desconsiderada.
O episódio é o mais inusitado – e, sim, divertido num sentido espírito-de-porco – da história recente da literatura brasileira. Contudo, partir dessa constatação para admirar a atitude do jurado C, como tenho visto acontecer por aí, me parece um despropósito. Esculhambação não é artigo que esteja em falta, muito pelo contrário, nas premiações literárias, na literatura ou em aspecto algum da vida brasileira. Sem uma mínima fundação ética que inviabilize o vale-tudo e a crença de que os fins justificam os meios, qualquer crítica é irrelevante. Nossa crônica literária ganhou um palpitante mistério folhetinesco às custas de perder (um pouco mais de) credibilidade.