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08/11/2012
Atualizada: 08/11/2012 00:00:00


Realizado pela revista CULT e pelo Sesc São Paulo entre 17 e 20 de maio, ?o 3° Congresso Internacional de Jornalismo Cultural reuniu nomes como ?o cineasta Werner Herzog, a ensaísta Camille Paglia e o escritor Enrique ?Vila-Matas para discutir o papel da imprensa no mundo de hoje

Para debater o presente, o passado e o futuro da imprensa e sua relação com a cultura, a revista CULT organizou, pelo terceiro ano consecutivo e o primeiro em parceria com o Sesc São Paulo, o Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, tendo como homenageado Glauber Rocha, cineasta e pensador brasileiro que dedicou a vida à arte.

“O congresso está inserido definitivamente na agenda cultural do país. Graças a um projeto muito bem estruturado e bem conceituado, ele é o maior evento de jornalismo cultural da América Latina. O Brasil saiu na frente”, diz a organizadora Daysi Bregantini.

Na abertura, realizada pelo diretor regional do Sesc SP, Danilo Santos de Miranda, foram homenageadas Paloma e Sara Rocha, filha e neta de Glauber. “Fico lisonjeada com o evento, que é muito apropriado, pois meu pai se aproximava muito do jornalismo nesse aspecto da busca, da descoberta e da revelação”, disse Paloma. A obra do cineasta foi analisada pelo crítico Ismail Xavier e, ainda no âmbito cinematográfico, os cineastas Werner Herzog e Hector Babenco discutiram, respectivamente, a realidade do cinema atual e sua relação com a crítica.

Entre os estrangeiros presentes no congresso, estava a ensaísta e escritora americana Camille Paglia, que comentou temas como homossexualidade, feminismo e cultura brasileira, o jornalista Jon Lee Anderson, que abordou o governo Obama e as revoluções árabes, e também o filósofo esloveno Slavoj Zizek, que ponderou sobre liberdade, censura e ideologia.

No campo das mídias digitais, o diretor do jornal Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, e o historiador Roger Chartier analisaram, respectivamente, sua relação com o jornalismo impresso e o livro. Já o universo musical foi representado pelo cantor Zeca Baleiro, que criticou a parcialidade dos críticos: “Não há como passar de uma eleição pessoal”.

Em relação à literatura, tema amplamente debatido durante o evento, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas falou sobre a natureza da criação literária, enquanto o cubano Pedro Juan Gutiérrez considerou seu aspecto lúdico. Ao julgar sua função social, a crítica Noemi Jaffe chamou atenção para o papel dos órgãos governamentais: “Eles devem assumir a responsabilidade de fazer com que ela chegue a cada vez mais pessoas”.

A função do editor foi analisada pelo argentino Julián Gorodischer, editor-chefe da revista Ñ, do diário Clarín, e o ofício do crítico literário, por Alcir Pécora, que leciona na Unicamp e também é colunista da CULT: “O crítico de erudição desapareceu das redações, que passaram a existir em função da terceirização”. Robinson Borges, do caderno semanal de cultura do Valor Econômico, falou sobre as ameaças ao exercício do jornalismo cultural: “Ele está perdendo o poder de análise e reflexão”.

Já a formação do profissional da área foi contemplada pelo porto-riquenho Héctor Feliciano, professor da Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano. Outros temas discutidos foram o jornalismo nas esferas da economia, das artes visuais, do teatro e da televisão. A seguir, confira uma visão geral do 3° Congresso Internacional de Jornalismo Cultural.

Diante de um auditório lotado, Werner Herzog abriu o evento falando de seu novo documentário, Cave of Forgotten Dreams [Caverna dos Sonhos Esquecidos], que registra pinturas rupestres.

“Não sou amigo do 3D, mas ele foi imprescindível por causa das protuberâncias e saliências usadas pelos artistas”, disse. Para os jovens cineastas, recomendou ler muito e andar a pé, e disse não haver dificuldades para produzir um filme: “Roubem uma câmera e falsifiquem qualquer documento, se for necessário”.

Já o cineasta Hector Babenco, que, ao lado do jornalista Ricardo Calil e da crítica de cinema Isabela Boscov, discutiu a relação entre cinema e crítica, comentou haver uma crise cinematográfica no Brasil: “Não sabemos fazer o tipo de cinema valorizado ?atualmente, mas sim melodramas televisivos exigidos pelo mercado”.

O professor de cinema na ECA-USP Ismail Xavier, ao analisar o cinema político de Glauber, definiu-o como “político, modernista e atento a uma reflexão histórica”. Na esfera televisiva, a filósofa e colunista da CULT Marcia Tiburi, ao lado de Zico Góes, diretor da MTV Brasil, falou sobre o papel da TV no âmbito da cultura: “A televisão que pensa que as massas são idiotas é fascista”.

“Tudo o que vi do Glauber Rocha ?me deixou maravilhado e admirado; todos que quiserem seguir o ofício deveriam tê-lo como um ponto de orientação” Werner Herzog

“Eu não sou contra a ?gente fazer televisão; sou contra a gente assistir a ela”  Marcia Tiburi

O jornalista e escritor Jon Lee Anderson, colaborador da revista New Yorker e autor de Che Guevara – Uma Biografia (Objetiva), entre outros livros, deu suas impressões sobre os ditadores árabes – “Gaddafi se enxerga como o rei da África” – e a revolução na Líbia – “É importante que o povo sinta como se ele próprio tivesse provocado a mudança”. Já o jornalista e escritor porto-riquenho Héctor Feliciano, que comentou sobre como se forma um jornalista cultural, criticou a falta de formação contínua dos profissionais: “Não há mais tempo nas redações para que os editores formem suas equipes”.

Após definir o jornal como “a síntese de tudo o que aconteceu de relevante nas últimas 24 horas, acompanhada por uma dimensão de interpretação e comentário”, o diretor da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, afirmou que a distinção entre os suportes do jornal, seja papel, seja tela de computador, é “pouco relevante do ponto de vista da prática”.

Já Julián Gorodischer refletiu sobre a responsabilidade do editor: “A relação com escritores deveria ser negociada a fim de diversificar as vozes que se expressam nos periódicos”

“Estamos começando a reconhecer que a democracia não é a solução, não é a utopia que imaginávamos”  Jon Lee Anderson

“O papel tem um carisma que é difícil de ser substituído; ao mesmo tempo, ele consome 40% dos custos; se desaparecesse, seria uma notícia muito positiva do ponto de vista do custo” Otavio Frias Filho

Autor do aclamado Trilogia Suja de Havana (Alfaguara), Pedro Juan Gutiérrez ressaltou o papel criativo da escrita: “Acho que a arte boa, de qualidade, está em torno da filosofia e do conceito do jogo. É necessário um contraponto vibrante junto com o rigor da seriedade, e esse antagonismo é a arte”.

Como representantes do estilo, citou Julio Cortázar e Franz Kafka, mas negou influência direta dos escritores em sua obra: “Nós amamos os deuses, mas não os imitamos. É melhor que imitemos os demônios”.

O espanhol Enrique Vila-Matas, autor de Paris não tem fim e Doutor Pasavento (Cosac Naify), explicou sua “Teoria de Lyon”, concebida em uma viagem à cidade francesa homônima. Na ocasião, ao não conseguir contato com os responsáveis por um congresso do qual iria participar, ficou fadado a esperar no quarto de hotel, o que fez com que filosofasse sobre a importância do ato de esperar.

“A busca do sentido da vida está na relação com a espera”, disse. O escritor falou também sobre a importância da tradição literária: “Escrever é um elo ininterrupto da tradição, todos os escritores devem saber que antes deles existiram outros”.

“Eu fico muito chateado quando vejo alguns escritores que não descrevem o sexo porque têm medo; acho que existe um sentido muito extenso neles do pecado, da culpabilidade, isso incomoda, porque somos mamíferos; não somos caracóis, bichinhos do mar” Pedro Juan Gutiérrez

“Tudo que em mim é autêntico provém da timidez da minha juventude; essa timidez que sempre foi fonte de desgraça na vida prática é de enorme riqueza poética; o escritor que não é tímido na vida não vale nada”  Enrique Vila-Matas

Ao analisar o jornal e, sobretudo, o livro na era digital, o historiador francês Roger Chartier apontou a escrita colaborativa como aposta para o futuro. “Pode parecer uma difícil realidade agora, mas, na Idade Média, os monges escreviam em conjunto os livros para a posteridade”, observou.

Chartier assinalou também a importância de as instituições de ensino investirem nas plataformas digitais: “Formam-se novos leitores com as novas mídias e é papel da imprensa e da escola ensinar a ler diante da tela”.

Em relação ao conteúdo publicado nos veículos de comunicação, criticou o fato de os livros resenhados serem essencialmente de escritores já com visibilidade, reduzindo o espaço para os novos. “O jornal limita-se a publicar resenhas dos autores e editoras mais conhecidos. Na França, editoras universitárias do interior publicam obras maravilhosas. Teses excelentes são transformadas em livros, mas dificilmente ganham espaço”, diz.

“A escrita na era digital é fragmentada, antológica; deve-se fazer a passagem de livros normais para essa plataforma pensando na sua lógica e adaptando-a” Roger Chartier

Andando de um lado para o outro do palco, Camille Paglia falou de feminismo e sexualidade, aproveitando para atacar a cantora Lady Gaga, chamando-a de vulgar e “imitadora barata de Madonna” e afirmando que “quem a acha sexy precisa de tratamento”.

Sobre o processo de escrita para seus artigos na internet, algo que faz desde 1995, disse pensar visualmente: “Para escrever com sucesso para a web, você tem de desenvolver um estilo visual. Escrevo como se cada parágrafo fosse uma entidade própria”.

Encerrando o congresso, Slavoj Zizek, apresentado pelo colunista da CULT Vladimir Safatle, abordou temas como liberdade, censura e ideologia. Em relação a essa última, aconselhou: “Para detectar distorções ideológicas, as pessoas não devem saber só o que é dito, mas o jogo complexo sobre o que é dito e o que não é dito, e uma coisa está implícita na outra”.

“Para mim, é ?nonsense refletir ?o mundo de forma abstrata; quando escrevo, tento usar ?os cinco sentidos, ?dar um toque sensorial ao texto”  Camille Paglia

Na mesa de teatro, os diretores Felipe Hirsch e Marco Antonio Rodrigues e o crítico Jefferson Del Rios debateram a produção contemporânea e o encargo da crítica especializada. “O crítico tem a responsabilidade de saber o que o artista fez, como fez e entendê-lo em sua complexidade. Deve ver a arte de forma apaixonada, e não com o olhar raso que se tem atualmente”, argumentou Hirsch.

Num debate sobre artes visuais, ao elencar os cuidados que o crítico deve ter ao abordá-las, a curadora Angélica de Moraes citou “a necessidade de manter em dia o prazo de validade, evitando repertórios superados e parâmetros de análise fora de foco”.

Já o pintor e artista multimídia Ivald Granato criticou o fato de os veículos falarem sempre nos mesmos nomes. “Você só tem seis curadores e dez artistas no mundo”, ironiza, e protesta: “Isso é um absurdo. É uma atitude cafajeste. Todo mundo quer falar isso, mas as pessoas têm medo das galerias.”

“Pergunto-me se o mundo ficou ignorante ou se esses jornalistas de veículos de grande porte, que falam sempre a mesma coisa, são completamente analfabetos”  Ivald Granato

Fonte: Revista Cult

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