09/12/2012
Atualizada: 09/12/2012 00:00:00
Segundo painel do seminário debateu reforma agrária e transgênicos
A agroecologia como uma alternativa economicamente viável para o campesinato e os efeitos nocivos dos defensivos agrícolas e dos alimentos transgênicos foram tratados no segundo painel do seminário “Desdobramentos da Rio+20 e Código Florestal Nacional”, promovido pelos grupos de trabalho de Política Agrária e Meio Ambiente (GT Pama) e de Ciência e Tecnologia (GT C&T) do ANDES-SN, de 8 a 9 de dezembro, em Brasília.
O segundo painel, realizado na tarde deste sábado (8), contou com a participação do agrônomo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) Claudinei Carneiro Zavarski, que falou sobre “A reforma agrária e a perspectiva da agricultura campesina” e do professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Althen Teixeira Filho, que discorreu sobre os “Impactos orgânicos da atual produção agrícola negocial – transgênicos e biocidas”.
Zavarski criticou a prática predatória praticada pelo agronegócio e defendeu a agroecologia como uma alternativa para a agricultura familiar e familiar. “Se na década de 1980 a luta do MST era por terras nas
quais praticaríamos uma cultura baseada no uso de agrotóxico, hoje trabalhamos na perspectiva de enfrentar esse modelo”, informou.
Reforma agrária retrocedeu
O representante do MST criticou o governo federal, que sob o argumento de qualificar os assentamentos, paralisou a realização de novas desapropriações. “A previsão orçamentária para o próximo ano não atende um terço das famílias assentadas, o que mostra que não interesse do governo em atender as famílias”, denunciou. Ele também criticou a intenção do Ministério de Desenvolvimento Agrário de dar a titulação de terras para os acampados, o que para ele é um retrocesso.
“O que ele vai fazer será privatizar uma terra que hoje o agricultor explora em esquema de concessão. Ao dar a titularidade e não oferecer condições para que este trabalhador se fixe na terra, o governo estará facilitando a venda desta terra, que com certeza voltará para as mãos dos latifundiários”, explicou.
Zavarski também acusa o Código Florestal aprovado no Congresso Nacional como prejudicial à reforma agrária. Ao permitir que as empresas mantenham Áreas de Proteção Ambiental em terras distantes das desmatadas, o Código contribui para que terras passíveis de desapropriação para fins de reforma agrária deixem de ser desapropriadas.
Ele também criticou o mercado de carbono, que “financeirizou o meio ambiente, sob o nome de preservacionismo.” Zavarski argumentou que se hoje o capital tem interesse em criar áreas de proteção ambiental, com a consequente expulsão dos pequenos lavradores que vivem nesses locais, amanhã pode ser o contrário. “O capital visa ao lucro e quando não for mais conveniente essas áreas serão desmatadas”, previu.
Transgênicos
Na palestra sobre os impactos orgânicos do uso de transgênicos e biocidas, o professor Althen Teixeira mostrou diversos efeitos colaterais causados nos humanos devido ao uso desses produtos na agricultura. “Não precisamos de agrotóxicos. Não há falta de alimentos, o problema é o desperdício e o uso dos produtos agrícolas para alimentar animais e gerar energia”, argumentou.
“A agroecologia é possível, não precisamos de agrotóxicos. Além de improdutivo, o agronegócio envenena a população”, defendeu o professor gaúcho. Ele acusou os partidos políticos de defenderem apenas os interesses das grandes corporações, que são os grandes financiadores das campanhas eleitorais. “Estou escrevendo um livro em que mostro os maiores doadores dos partidos. Sabendo quem financiou, saberemos como cada deputado irá votar”, vaticinou.
Avaliação
A realização do seminário foi elogiada pelos participantes. “Os painéis estão fornecendo dados sobre assuntos polêmicos, o que nos ajudará a analisar a realidade. Além disso, os temas tratados aqui deverão ser discutidos nos grupos de trabalho, que consolidarão uma agenda de trabalho”, avaliou a diretor da Associação dos Docentes do Rio de Janeiro Cláudia Piccinini. Ela também ressaltou a necessidade de o ANDES-SN articular-se com outros movimentos sociais para atuar melhor nas questões ambientais. “Temos de ver como nós, enquanto acadêmicos e sindicalistas, poderemos contribuir nesse processo”.
Já Denny Silva, diretor da Adunicentro, acredita que o seminário servirá para ampliar o debate sobre a intervenção do Sindicato Nacional sobre as questões ambientais. “Acho que sairemos daqui dispostos a intervir mais nesse debate, levando essas discussões para os grupos de trabalho locais e para a sociedade”, afirmou.
O 1º vice-presidente da Regional Planalto do ANDES-SN, Maurício Silva, ressaltou a necessidade de os GTs locais fomentarem discussões sobre meio ambiente e ciência e tecnologia, como forma de ampliar o debate. “O debate no seminário está excelente, mas precisamos envolver mais pessoas para intervirmos com mais força nessa questão”, pontuou.
Para um dos coordenadores do GT Pama e diretor do ANDES-SN, Daniel Nedel, o seminário está servindo para jogar luz sobre alguns pontos, como a privatização de terras públicas por meio da titularização, como denunciou Zavarski. “Também devemos nos posicionar sobre a relação íntima entre o governo brasileiro e o agronegócio”, afirmou. Nadel defendeu uma discussão maior entre os docentes sobre as pesquisas, realizadas nas universidades com dinheiro público, mas também com financiamento privado, que são usadas para aprimorar a agroindústria e a acumulação de capital nas mãos de poucos.
O seminário continuará neste domingo (9). Pela manhã, haverá a palestra do professor da Universidade Federal do Rio Grande (UFRG) Antônio Libório Philomena, que falará sobre “O Código Florestal: uma visão sistêmica – impactos diretos”. Já os impactos indiretos do Código Florestal serão tratados na palestra seguinte, a ser proferida pelo professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) José Domingues de Godoi Filho. No horário da tarde, das 14h30 às 18h, serão discutidos os encaminhamentos do seminário.
Para o 2º vice-presidente da Regional Planalto do ANDES-SN e um dos organizadores do seminário, Claus Akira Matsushigue, o evento está atingido um de seus objetivos, que é subsidiar as discussões para a elaboração das propostas sobre meio ambiente a serem apreciados no 32º Congresso do Sindicato Nacional. “Está sendo possível ter um bom panorama sobre as questões ambientais mais atuais”, avalia.