13/03/2013
Atualizada: 13/03/2013 00:00:00
Eric Nepomuceno


Nenhuma surpresa, nenhuma dúvida: o candidato da oposição para suceder Hugo Chávez na presidência da Venezuela é o mesmo Henrique Capriles derrotado por ele em outubro passado. E o candidato do partido de Chávez será o atual presidente em exercício, o mesmo Nicolás Maduro que ele indicou para ser seu sucessor.
Capriles oficializou sua candidatura na noite do domingo, dia 10. Maduro, na tarde da segunda-feira, dia 11. Os eleitores irão escolher um deles no dia 14 de abril, o segundo domingo do mês. O favoritismo de Maduro é avassalador.
Assim começa um novo tempo na Venezuela – a era do chavismo sem Chávez. E Nicolás Maduro tem pela frente o árduo desafio de consolidar sua liderança no imenso vazio deixado pelo presidente morto.
Para isso, terá de buscar novos equilíbrios, conquistar lealdades, procurar um consenso delicado não apenas junto a seus pares, mas também junto à população deixada órfã.
Ele terá, enfim, de fazer tudo isso num país radicalmente polarizado, com profundos problemas de violência urbana, problemas no abastecimento, problemas na economia. Um país dividido entre seguidores ardorosos de Hugo Chávez e críticos furibundos de tudo que se relaciona com sua liderança carismática e profundamente popular.
Apesar de todo seu favoritismo, enfrentará uma campanha especialmente dura. Mesmo com perspectivas sombrias, seu adversário irá bater com força e fúria, começando por um lado frágil do candidato chavista: a nebulosa interpretação da Constituição que fez dele ‘presidente encarregado’. O texto constitucional estabelece que deveria ser Diosdado Cabello, presidente da unicameral Assembléia Nacional, quem deveria conduzir o país e convocar os eleitores no prazo de 30 dias.
Capriles, dando uma boa mostra do que pretende fazer ao longo da campanha, chamou o processo de declarar Maduro presidente em exercício de fraude. Com isso, desapareceram, pelo menos no momento, as possibilidades de um diálogo mínimo com a oposição.
Outra conseqüência de nomear Maduro presidente interino foi relegar Diosdado Cabello a um papel político menor. A esse movimento somou-se outro, quando Maduro nomeou seu vice-presidente o genro de Chávez e até então ministro de Ciência e Tecnologia, Jorge Arreaza. Ele e o sogro eram extremamente próximos. Arreaza mudou-se para Havana enquanto durou a longa agonia de Chávez. Integra a linha marxista mais dura do chavismo. Diosdado Cabello é da linha dos pragmáticos. Continua poderoso e influente, e mais cedo que tarde Maduro terá de negociar com ele. Por enquanto, o que se vê entre os dois é uma longa troca de juras de lealdade. O que não se vê é cada um organizando suas tropas na disputa por espaço e poder.
Nomear Maduro presidente interino e ele, por sua vez, nomear o genro de Chávez vice-presidente foi, claramente, um golpe de força contra o outro candidato a herdeiro do comandante morto. Mais do que de Maduro, foi uma vitória da ala mais rígida e ortodoxa do chavismo, tanto dos políticos como dos militares.
E se significa uma clara mostra de coesão ao redor do escolhido por Chávez para sucessor, significa também um fechamento de espaços para diminuir ou ao menos suavizar a forte polarização na sociedade venezuelana.
Afinal, não se pode esquecer que, em outubro passado, a oposição, tendo o mesmo Capriles como candidato, saiu das urnas com quase 45% dos votos. Chávez obteve uma vitória tranquila, com pouco mais de dez pontos de vantagem. Mas 45% é uma porcentagem bastante respeitável, e mostra que, pelo menos naquela altura, havia uma significativa massa de adversários de Chávez e de seu governo dispostos a buscar uma alternativa nas urnas.
O cenário que Maduro tem pela frente é sério e exige muito esforço para que surjam soluções. Inevitavelmente, ele terá, depois de eleito, de assumir medidas antipopulares. Sem ter, nem de longe, o poder de convencimento de Chávez, sem ter carisma algum e sem um canal direto de diálogo com as massas, Maduro terá, necessariamente, de contar com o apoio decidido de todas as múltiplas correntes que integram o chavismo, tanto políticas como militares, sem perder de vista nem por um segundo os movimentos populares.
Na busca desse impreciso equilíbrio, a Venezuela tratará de manter viva a revolução bolivariana. Uma tarefa difícil e complexa, mas dela depende o futuro do povo de Simón Bolívar.