14/03/2013
Atualizada: 14/03/2013 00:00:00
Maceió 13, de março de 2013
Ao mestre (Paulo Décio), com carinho!
Certo dia, ouvi de uma pessoa que tem como profissão a docência a seguinte afirmação: “não estou na Universidade para fazer amigos, mas, para trabalhar”. Fiquei perplexa com essa reflexão, mas, depois entendi que cada um faz da academia o que pode fazer e vive como pode viver. Com Paulo Décio, essa proposição não fazia o menor sentido. Ele construiu muitas amizades no espaço universitário, e sua morte prematura deixa muitos amigos tristes e desolados.
É muito estranho e difícil falar de Paulo Décio no passado. Ele está muito vivo em minha memória; e, é preciso tempo para elaborar esse luto. Para homenageá-lo, nesse momento em que ainda me sinto tão abalada com o seu trágico desaparecimento, partilho com vocês uma das últimas conversas que tive com Paulo Décio nos corredores do nosso ICS. Como sempre, nesse encontro, registramos nosso desejo recíproco de nos encontrarmos fora dos espaços acadêmicos, para aquela boa conversa sobre a vida, que costumava acontecer entre nós, regada a uma boa música e a uma cerveja bem gelada, é claro! Propus que nos encontrássemos em sua casa, lugar onde sempre fomos muito bem acolhidos por sua família. Aguardaria seu convite; assim ficou combinado! Nessa ocasião, partilhou comigo que sua aposentadoria estava em trâmite. Fiquei feliz e triste! Feliz porque me contou dos muitos projetos que tinha reservado viver após despedir-se da Ufal; triste, porque perderia seu convívio no ambiente universitário, com sua presença sempre tão doce, tão amiga e fiel.
Então, aproveitei esse início de despedida, em função de sua aposentadoria, para dizer-lhe o quanto sentiria sua falta, o quanto foi bom ter desfrutado do seu convívio nesse tempo de minha vida acadêmica, o quanto o reconhecia como o verdadeiro autor do Projeto do Instituto de Ciências Sociais da UFAL. Lembrei-lhe de sua participação decisiva no convencimento dos colegas sobre a importância de constituição do ICS, sendo esse o único caminho que ele vislumbrava para a consolidação da área de conhecimento das Ciências Sociais em nossa Universidade. Eu mesma não estava convicta de que a separação das outras áreas de conhecimento (História, Filosofia, Psicologia) seria interessante. Mas, com seus argumentos, terminou por me convencer e eu votei a favor desse projeto! Na época, como Chefe do Departamento, Paulo Décio capitaneou todo o processo. Foi um visionário, diria. Dedicou-se exaustivamente à elaboração do Projeto do Instituto, participou de centenas de reuniões e negociações, enfim, justificou tão bem a importância da autonomia das Ciências Sociais na Ufal que seu sonho tornou-se realidade.
Ainda nesse quase último encontro (o último foi no carnaval do Jaraguá), pude lhe expressar toda minha admiração, todo o meu reconhecimento, todo meu carinho e amizade, dizendo-lhe que ele iria fazer falta a mim e à vida da universidade. Nem posso acreditar que agora ele não está mais entre nós! Mesmo cientes de que a condição humana é marcada pela finitude, desejamos a eternidade, nossa e de nossos amigos; até nos depararmos com a cruel realidade que “o para sempre, sempre acaba”, com nos diz Cássia Eller.
A única forma que temos de nos eternizar é pelas ações que produzimos em vida; Paulo Décio se eterniza pelas muitas ações que produziu: seja no campo profissional, seja no campo pessoal, seja no campo das amizades. Ele jamais será esquecido por nós que tivemos o privilégio de desfrutar de sua amizade e dos seus conhecimentos.
Minha memória eternizará Paulo Décio pelos muitos registros que tenho de seu jeito alegre e bem humorado, pelas tantas delicadezas e gentilezas que sempre dispensava aos colegas e amigos, pelas várias situações em que demonstrou sensatez, moderação, lucidez, cordialidade, pelos gestos de solidariedade e cooperação, pela disponibilidade, pela capacidade amorosa de partilhar, com cumplicidade, da vida com os amigos, enfim, Paulo Décio não passou por esse mundo despercebido. Ele fez a diferença!
Nosso querido Paulo Décio chegou em Alagoas nos idos dos anos 80 para trabalhar na Secretaria de Planejamento do Estado; desde lá, demonstrou seu potencial, seus talentos e sua envergadura intelectual. Deixou muitos estudos, pesquisas, publicações que são ilustrativos de sua inegável capacidade analítica bem como de sua lucidez para a compreensão dos meandros e da complexidade do que conhecemos como o Estado de Alagoas. Paulo Décio deixa um legado para todos nós!
Essa não é uma homenagem póstuma; mas sim, uma demonstração do quanto é possível viver a vida acadêmica com amor, construindo laços de afeto, sendo um mestre para o qual todos podem escrever cartas, com carinho!
Ruth Vasconcelos
Professora do Instituto de Ciências Sociais da Ufal