17/06/2013
Atualizada: 17/06/2013 00:00:00

A herança inalterada de uma força militar repressiva agindo em âmbito estritamente civil apenas nos mostra que as camadas dominantes – políticas e econômicas – de algumas repúblicas latino-americanas já se preparavam, desse modo (com maior ou menor consciência), para os conflitos e tensões que o achatamento generalizado de todos os âmbitos da existência social teria sobre os seus cidadãos. A própria Secretaria de Segurança Pública, em 2011, divulgou dados que mostram que a Polícia Militar paulista matou 6,3% mais que toda a polícia dos Estados Unidos entre 2005 e 2009.
Não por outra razão, um relatório divulgado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, em maio de 2012, sugeriu ao governo brasileiro que literalmente suprimisse a instituição, acusada de diversos homicídios extrajudiciais. Por sua vez, a própria revista Veja São Paulo (aliada política do governo do Estado) elaborou reportagem em que constatava que, em 2011, 6.122 policiais militares haviam se formado, constituindo um contingente 50% maior do que o dos anos anteriores, o que implica ainda menos tempo de treinamento. Não obstante, relata a revista, “de 2006 para cá, São Paulo teve um aumento de 15% nos furtos e de 93% nos latrocínios, entre outros dados preocupantes”. Tais números deixam ver não apenas a ineficiência dessa organização, senão também os princípios originais para os quais foi criada e que são sua raison d’être: a contenção de mobilizações populares.
Do cinismo sobre a violência
À luz desse quadro, temos uma leve ideia do cinismo que jaz por trás das acusações de autoridades e de boa parte da grande imprensa (principalmente televisiva) sobre os “atos de violência” – por parte dos manifestantes – que marcaram alguns protestos. O menor olhar panorâmico sobre a constituição do atual “Estado democrático de direito” e sua evolução nos termos neoliberais mostra que é esse Estado quem antepõe a violência, mesmo a mais brutal, em sua própria estrutura “democrática”. A existência de uma instituição policial de molde militar carrega, implícita, a prevalência da violência contra a disseminação de mobilizações de anseio popular, com as quais supostamente devem caminhar o ordenamento político e jurídico.
No entanto, o verdadeiro avanço dos recentes protestos ao redor do mundo é a percepção crescente de que esse mesmo ordenamento se mostra incapaz de proteger os direitos humanos mais elementares. A relação promíscua existente entre os representantes políticos e as mesas diretoras das grandes corporações e bancos expõe os comprometimentos elitistas os quais a democracia parlamentar e a república estão, hoje, sujeitas.
Neste ponto, vale a pena recuperar o raciocínio de David Harvey sobre as crises advindas de tais comprometimentos. Ele diz: “As classes altas, insistindo em seu sacrossanto direito de propriedade, preferiram [refere-se às décadas de 1920 e 1970] fazer o sistema vir abaixo a renunciar a algum privilégio ou ao poder. Ao agir assim, não estariam se esquecendo de seus próprios interesses, pois caso se posicionem bem, poderão lucrar com o colapso [como revela a declaração de Warren Buffett sobre o “excelente” ano de 2012 para os milionários].
Alguns membros seus poderão ser apanhados e acabar se jogando de alguma janela de Wall Street, mas essa não seria a norma. O único temor que têm é de movimentos políticos que os ameacem de expropriação ou de violência revolucionária. Embora possam ter a expectativa de que o sofisticado aparato militar com o qual contam hoje proteja a sua riqueza e o seu poder (...)”. Não se trata, aqui (e certamente não é disso que fala Harvey), de fazer apologia à violência. Trata-se, sim, de compreender que a mesma sempre esteve presente, em maior ou menor grau, nos processos efetivos de transformação histórica das sociedades.
E mais: essa violência expressa algo muito específico. Se, no século XIX, os operários ingleses se lançaram contra o maquinário fabril por ver nele a razão de sua miséria extrema, hoje, os mesmos trabalhadores e estudantes se lançam contra equipamentos estatais e privados por enxergar neles (como negar essa hipótese de lucidez?) expressões materiais da promiscuidade generalizada entre interesses públicos e privados, razão de suas insatisfações e frustrações profundas. Dirão alguns, entretanto, que essa violência não é politicamente motivada, senão um mero ato de “vandalismo”.
Ainda assim, mesmo sob tal aspecto – sem dúvida alguma, condenável –, em termos de destruição esses atos estão longe de poder comparar-se ao radical processo de destruição-criativa, com que regiões inteiras do planeta são devastadas a fim de permitir a reprodução ampliada do capital. Harvey chamou isso de um retorno, no neoliberalismo, à “acumulação por espoliação”, necessária à sobrevivência do sistema. A jornalista e ativista canadense Naomi Klein tratou desse mesmo fenômeno em seu documentário A Doutrina do Choque. Ou seja, mesmo sob o aspecto da destruição pura, não é possível comparar os efeitos desses atos de “vandalismo” àqueles que apenas se acentuaram em todo o planeta há cerca de quarenta anos, e que constituem a ordem defendida pelas autoridades atuais.
Por qual democracia?
Por fim, após quatro mobilizações que arrastaram milhares de pessoas às ruas e lograram o apoio da maioria da população da capital paulista, está em jogo também isto: o sentido atribuído à palavra “democracia”, como praticada nas repúblicas ocidentais contemporâneas.
O filósofo esloveno Slavoj Žižek, quando de sua intervenção junto ao movimento de ocupação de Wall Street, em 2011, lembra (citando Alain Badiou): “hoje, o nome do pior inimigo não é capitalismo, império, exploração ou algo similar, mas democracia: é a ‘ilusão democrática’, a aceitação dos mecanismos democráticos como a moldura fundamental de toda mudança, que evita a transformação radical das relações capitalistas”. Assim, a democracia parlamentar, fundada sob o paradoxo do “mudar para que nada mude”, fornece ela mesma um sentido específico para os protestos: marcar a diferença entre o que “eles” chamam de “democracia” e o que “nós” vemos como limites inaceitáveis dessa mesma “democracia”.
Em um livro seminal, Dolf Oehler mostra como as jornadas de junho de 1848, em Paris, colocavam pela primeira vez em disputa a hegemonia sobre o significado das palavras “Liberdade”, “Igualdade”, “Fraternidade”, erguidas pela primeira vez em 1789. Karl Marx, em A Guerra Civil na França, já havia atentado para essa disputa simbólica, resolvida nas ruas, por sobre as barricadas, entre a população pobre e o exército da burguesia liderado pelo general Cavaignac. Guardadas as devidas e importantes proporções, resta esperar que o mesmo, agora em relação ao real significado de “democracia”, esteja finalmente colocado em jogo, no Brasil, daqui em diante.